Brasil em alerta: queda da vacinação aumenta risco de retorno da poliomielite
Menos de 20% dos municípios brasileiros atingem a cobertura vacinal recomendada para a imunização infantil. O risco de reintrodução da poliomielite no país aumenta à medida que o vírus continua circulando em países onde a doença ainda é endêmica.
Redação De Gota em Gota
A poliomielite parecia fazer parte apenas dos livros de história. Eliminada da Região das Américas há mais de três décadas, a doença voltou a preocupar especialistas diante da queda da vacinação infantil no Brasil. Em 2024, menos de 20% dos municípios brasileiros alcançaram a meta de 95% de cobertura vacinal contra a poliomielite, índice considerado necessário para impedir a circulação do vírus e garantir a proteção coletiva da população.
Embora o Brasil não registre casos do poliovírus selvagem desde 1989, a doença continua circulando em países como Afeganistão e Paquistão. Com a baixa cobertura vacinal, a chegada do vírus por meio de viajantes ou outras formas de circulação internacional aumenta o risco de reintrodução da doença no país.
Conhecida popularmente como paralisia infantil, por conta do seu alto contágio nos primeiros anos de idade, a poliomielite é uma doença viral altamente contagiosa, transmitida principalmente por via fecal-oral, por meio de água e alimentos contaminados. A maioria das infecções é assintomática ou apresenta sintomas leves. Mas o problema está na parcela dos casos em que o vírus atinge o sistema nervoso central e provoca paralisia irreversível, sobretudo nos membros inferiores.
Quando o poliovírus selvagem atinge o sistema nervoso da pessoa infectada, é possível causar paralisia permanente, sendo mais comuns os casos em crianças de até cinco anos de idade, que ainda não desenvolveram a imunidade corporal completa. Em alguns pacientes, a sequela paralítica nos braços ou pernas a acompanha por toda a vida e, em outros, quando atinge partes do cérebro essenciais para a respiração, pode levar à morte.
“A poliomielite é uma doença grave que acomete a medula espinhal, região responsável pelo controle dos movimentos. Ao destruir os neurônios motores, o vírus pode deixar sequelas permanentes, comprometendo a função muscular e causando dificuldades para caminhar, realizar movimentos e manter a independência funcional ao longo da vida”, comenta a Dra. Jeyce Nogueira, do Setor de Investigação em Doenças Neuromusculares da Unifesp.
Os primeiros sintomas são muito parecidos com um resfriado comum: febre, mal-estar e dor de garganta, e não é possível prever se a infecção vai se dissipar rapidamente como uma virose ou evoluir para uma fraqueza muscular momentânea que pode causar a paralisia efetiva nos membros do infectados. Por isso, a primeira dose da vacina é prevista aos dois meses de vida, seguida por outras doses aos quatro e seis meses. O esquema inclui ainda dois reforços: o primeiro aos 15 meses e o segundo aos quatro anos de idade. Desde agosto de 2026, o calendário nacional passou a contar com cinco doses da vacina inativada contra a poliomielite (VIP), reforçando a proteção das crianças contra a doença.
No Brasil, nosso último caso do poliovírus selvagem foi registrado em 1989 na Paraíba e, graças ao sucesso das vacinações na década de 1990, a Região das Américas recebeu o certificado oficial de eliminação da doença em 1994, concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
O índice de cobertura vacinal permanecia estável no país e, de acordo com a média estabelecida mundialmente pela Organização das Nações Unidas (0NU), ao menos 95% das crianças nascidas foram imunizadas todos os anos, até 2015, quando iniciou uma queda no número de vacinados que seguiu instável e abaixo do ideal nos anos seguintes. Até 2026, não houve recuperação total, estando em 84% até julho. Em 2025, apenas 88% das crianças foram vacinadas.
É possível acompanhar em tempo real os dados da vacina da poliomielite e das demais presentes no calendário vacinal no site do Ministério da Saúde.
O desafio não se limita à primeira dose, aplicada aos dois meses de vida. A cobertura vacinal diminui progressivamente nas doses seguintes, refletindo o abandono do esquema vacinal por parte de muitos responsáveis que acreditam, de forma equivocada, que a criança já está suficientemente protegida após as primeiras aplicações. No último Informe Anual de Cobertura Vacinal, divulgado pelo Ministério da Saúde em 2025, mas referente a 2023, a terceira dose apresentou índices ainda mais baixos de cobertura.
A queda, no entanto, não pode ser atribuída apenas à falta de informação ou ao abandono do calendário. O avanço do ativismo antivacina e da desinformação nas redes sociais também passou a influenciar a decisão de parte da população, cenário que ganhou força no Brasil após a pandemia de Covid-19. Segundo a Dra. Ana Sartori, professora do Departamento de Infectologia e Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, esse movimento pode ultrapassar uma vacina específica e afetar a confiança em diferentes imunizantes.
“Nós temos no Brasil hoje uma situação que não havia antes da pandemia, que é um ativismo antivacina, com muita gente fazendo propaganda contra a vacina e com a circulação de fake news nas redes sociais. Esse ativismo atinge todas as vacinas. Você pode estar falando de uma, que no caso era principalmente sobre a Covid-19, mas acaba afetando a confiança nas demais”, explica.
Para a especialista, a desinformação também já atingiu especificamente a vacinação contra a poliomielite em outros países. Houve casos de campanhas de imunização interrompidas em países africanos após a circulação de falsas informações de que a vacina poderia causar esterilidade ou até mesmo contribuir para surtos da paralisia flácida aguda.
Um dos países mais afetados pelas Fake News contra a vacina de gotinha foi o Sudão. A grande repercussão foi anunciada em todo o mundo, e jornais e especialistas precisaram explicar que os casos não foram derivados da própria vacina, como alguns indivíduos estavam comentando. O episódio evidencia como a circulação de informações falsas pode comprometer a confiança da população na vacinação e dificultar o controle de doenças que já não circulam de forma endêmica no globo.
Mas se a poliomielite foi erradicada, por que ainda é necessário se vacinar?
Mesmo com as tentativas de imunização mundiais pela Organização das Nações Unidas (ONU), que sucessivamente eliminou o vírus ao longo de duas décadas — nas Américas em 1994, no Pacífico Ocidental em 2000, na Europa em 2002, no Sudeste Asiático em 2014 e na África em 2020 —, ainda há países onde a situação é considerada endêmica, ou seja, o poliovírus selvagem continua circulando e causando infecções recorrentes no Paquistão e Afeganistão.
A incidência de um país em que o vírus ainda circula é suficiente para que pessoas não vacinadas entrem em contato com a doença, como afirma a Dra. Ana Sartori:
“O maior risco é se chegar alguém vindo de outros países onde ainda exista a pólio e essa pessoa esteja eliminando o vírus, pois ela pode contaminar o ambiente, contaminar águas, e através dessa água contaminada outras pessoas não vacinadas podem se contaminar. Então, o risco é a entrada do vírus através de importação de países onde a poliomielite ainda existe”, comenta.
Esse tipo de reintrodução já foi observado na prática. Vestígios do vírus em canais de esgoto já foram encontrados em grandes metrópoles de países desenvolvidos, como em Londres, em 2022, e nos Estados Unidos, também no mesmo ano. Os testes de ambos os países concluíram que o vírus estava sendo disseminado por pessoas que tomaram a dose oral da vacina de poliomielite, as tão famosas gotinhas que contêm o vírus atenuado (enfraquecido e feito especialmente para criar resistência contra a infecção) e que essas pessoas provavelmente eliminaram o vírus pelo intestino, que foi detectado pela amostragem do esgoto.
Em situações extremamente raras, a própria vacina oral pode estar associada a um caso de paralisia em quem recebeu a dose ou em pessoas próximas. Esse evento é conhecido como poliomielite paralítica associada à vacina (VAPP) e apresenta uma incidência muito baixa. Segundo a Associação das Vacinas (Gavi), desde 2000, mais de 10 bilhões de doses da vacina oral contra a poliomielite foram administradas a quase três bilhões de crianças em todo o mundo, enquanto pouco mais de 1.000 casos de paralisia associada à vacina foram registrados no mesmo período.
Existe, porém, outra situação, diferente dos casos diretamente associados à vacinação. Em comunidades com baixa cobertura vacinal, o vírus enfraquecido presente na vacina oral pode continuar circulando entre pessoas não imunizadas. Durante a transmissão de pessoa para pessoa, ele pode sofrer alterações genéticas e, depois de um período prolongado de circulação, recuperar características capazes de provocar paralisia. É assim que surge o chamado poliovírus circulante derivado da vacina (cVDPV).
Por isso, a presença do vírus derivado da vacina não significa que a vacinação esteja provocando surtos de poliomielite. O risco aparece principalmente quando a cobertura vacinal é insuficiente para interromper a circulação do vírus. Quanto menor a proteção da população, maior a possibilidade de o vírus vacinal permanecer em circulação, sofrer alterações e atingir pessoas que não estão imunizadas.
Esse cenário reforça a importância da manutenção de altas coberturas vacinais. Quando a vacinação diminui, o vírus, seja ele importado ou derivado da vacina, encontra espaço para circular novamente:
“O próprio sucesso da vacinação diminui a incidência das doenças e leva as pessoas a acharem que não tem mais importância vacinar quando não é bem assim, pois vivemos num mundo global, a gente tem controlado aqui, mas, se tem em outro lugar, pode reentrar. Veja o sarampo que entrou nos Estados Unidos (EUA) e deu um surto enorme e já com consequências no Canadá, México, em vários países próximos”, continua a Dra. Ana Sartori.
O sarampo é um exemplo recente desse risco. Em agosto de 2026, São Paulo registrou 23 casos da doença, sendo dois importados e os demais relacionados à importação do vírus. Até então, 14 dos pacientes não tinham histórico de vacinação ou estavam com o esquema vacinal incompleto. O estado passou a ser considerado pelo Ministério da Saúde o único com surto ativo de sarampo no país, enquanto a cobertura da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) permanecia abaixo da meta de 95%: 77,5% para a primeira dose e 65,5% para a segunda. O Brasil havia recebido o certificado de eliminação do sarampo em 2016, perdeu o reconhecimento em 2019, após registrar cerca de 18 mil casos, e voltou a recebê-lo em 2024. O cenário atual mostra como a circulação internacional de um vírus pode voltar a representar uma ameaça quando encontra populações com proteção vacinal insuficiente.
Dra. Ana Sartori explica os riscos da reintrodução de doenças já erradicadas. Vídeo: Ivis Sabrina Vancetto Mancini (2026).
Jonas Salk e Albert Sabin: as duas vacinas que mudaram a história
O surgimento da doença ainda não é certo. Há evidências de pinturas e imagens da era antiga de egípcios retratados com algum membro do corpo atrofiado ou com a mobilidade reduzida. Os primeiros casos começaram a ser monitorados no século XVIII, quando foi dado o nome de poliomielite, que depois também ficou conhecida como paralisia infantil, por conta da parcela de situações em que os pacientes apresentavam uma parte do corpo paralisada, com mais evidência em membros inferiores.
A dificuldade dos cientistas de entenderem a transmissão e, principalmente, a maneira de erradicá-la foi o fato de que grande parte dos bebês era protegida da infecção pelos próprios anticorpos maternos ou pelas más condições de higiene daquele período. Diversas crianças que entraram em contato com o vírus desde muito cedo desenvolveram a doença de forma benigna e produziram imunidade.
Porém, à medida que os pequenos eram protegidos de infecções por conta da melhora nas condições sanitárias no século XIX, mais tardiamente tinham o contato com o vírus paralítico, levando assim à um aumento epidêmico dos acometidos.
Segundo o historiador André Luiz Vieira de Campos, a poliomielite adquiriu uma “natureza misteriosa”, pois contrariava a lógica do higienismo: enquanto melhorias sanitárias contribuíam para reduzir diversas doenças infecciosas, a pólio continuava desafiando a ciência ao provocar grandes epidemias.
A primeira epidemia significativa ocorreu na Suécia em 1887, seguida de diversas outras em países europeus e nos Estados Unidos. No Brasil, o primeiro surto epidêmico foi descrito em 1911, com cerca de 85% dos casos, sendo crianças de até 27 meses de idade.
Com o aumento e dispersão dos casos por todo o globo, diversos estudos começaram a ser produzidos. Um experimento cooperativo em 1949 coordenado pelo epidemiologista norte-americano William McDowell Hammon, da Universidade da Califórnia, demonstrou que o poliovírus possuía três cepas imunologicamente distintas, descoberta que foi fundamental para o desenvolvimento das vacinas.
O médico e virologista norte-americano Jonas Salk, da Universidade de Pittsburgh, trabalhava com a vacina do vírus inativada e tratada com formalina, sendo uma dosagem injetável a partir da teoria de que a ausência do vírus vivo impossibilitava a mutação potencial e a reversão da infecção.
O desenvolvimento da vacina foi resultado de anos de pesquisas financiadas pela National Foundation for Infantile Paralysis, organização criada em 1938 pelo presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, que havia sido diagnosticado com poliomielite em 1921. Conhecida posteriormente como March of Dimes, a fundação mobilizou campanhas nacionais de arrecadação de recursos e financiou grande parte das pesquisas que culminaram nas vacinas desenvolvidas por Salk e, mais tarde, por Albert Sabin.
Sabin, que nasceu na Polônia mas emigrou nos EUA em 1921, utilizava o vírus vivo atenuado em sua produção por via oral, acreditando que uma infecção ativa reproduz de maneira mais próxima a situação natural, seria mais fácil conseguir a resistência necessária. Antes de ser adotada em diversos países, sua vacina passou por estudos em larga escala envolvendo milhões de pessoas, principalmente na antiga União Soviética, o que comprovou sua segurança e eficácia.
Após os testes em humanos, foi concluído que as duas vacinas eram eficazes e poderiam ser distribuídas em escala global. A fórmula Salk foi, em um primeiro momento, voltada para países desenvolvidos com um sistema de saúde integrado, pois a vacinação em massa injetável requer uma maior quantidade de profissionais em todo o país.
Por outro lado, a vacina oral foi importante para os países emergentes e subdesenvolvidos, pois, além da dose ser mais barata, não precisava, necessariamente, de profissionais qualificados, visto que a orientação era pingar duas gotas na boca de cada criança. Além da facilidade, também era mais aceita pela população.
Linha do tempo da poliomielite no mundo e no Brasil. Elaboração: Ivis Sabrina Vancetto Mancini (2026).
O Zé Gotinha como símbolo da vacinação
Criado na década de 1980, o personagem surgiu como uma estratégia para aproximar a vacinação do público desejado: as crianças, e também reduzir o medo das campanhas. Com aparência amigável e linguagem acessível, o Zé Gotinha ajudou a transformar a imunização em um gesto cotidiano, incorporado à rotina das famílias brasileiras.
Mais do que um mascote, ele passou a representar uma geração inteira que cresceu sendo levada aos postos de saúde para receber as “gotinhas” em campanhas amplamente divulgadas na televisão, nas escolas e em espaços públicos. Nos chamados “Dias Nacionais de Vacinação”, filas se formavam em diferentes regiões do país, refletindo uma mobilização coletiva em torno da proteção das crianças.
A estratégia foi decisiva para o sucesso das campanhas e para a eliminação da poliomielite no Brasil. Ao longo dos anos, o Zé Gotinha ultrapassou o papel de personagem destinado apenas à poliomielite e se consolidou como um dos principais símbolos da saúde pública brasileira, sendo utilizado até hoje em campanhas de vacinação infantil.
Zé Gotinha, a história: vídeo apresenta a criação e a trajetória do personagem símbolo das campanhas de vacinação no Brasil. Criação: Darlan Rosa. Fonte: YouTube.
A Síndrome Pós-Pólio e o envelhecimento
Com os últimos casos de poliomielite no Brasil registrados há 37 anos, médicos e pesquisadores ainda buscam maneiras de melhorar a qualidade de vida dos acometidos, principalmente relacionado à mobilidade e melhora da dor nos membros que foram atingidos.
Quando os primeiros surtos endêmicos surgiram e as vacinas foram criadas, ainda não se tinha ideia dos problemas que o poliovírus selvagem poderia causar pelo resto da vida dos pacientes. Após um longo período de estabilidade dos sobreviventes, um novo aumento de reclamações relacionadas à fadiga, dor e fraqueza no final dos anos 70 levou os pesquisadores a iniciar novas teses e denominar esses novos sintomas como Síndrome Pós-Polio, por volta de 1986.
A Síndrome Pós-Pólio, como é comumente chamada, acomete pacientes com cerca de 15 a 40 anos após a infecção. Os estudos ainda são majoritariamente teóricos, mas sabe-se que a doença afeta a região da medula espinhal, responsável pelos movimentos musculares e, na fase aguda, o vírus tem a capacidade de destruir neurônios motores.
Então, mesmo que os pacientes acometidos sejam tratados adequadamente com a reabilitação necessária de fisioterapia e recuperem parte dos movimentos previamente perdidos, os neurônios que sobrevivem precisam assumir também a função daqueles que foram perdidos, o que gera uma sobrecarga diferente do que o corpo humano está acostumado e leva ao surgimento de uma nova fraqueza muscular.
As pesquisas sugerem que indivíduos que tiveram profissões braçais ao longo da vida ou foram expostos a atividades muito repetitivas e fisicamente desgastantes possuem maiores probabilidades de desenvolver a síndrome. De acordo com a Dra. Jeyse Nogueira, os pacientes acabam se adaptando com as sequelas e, em um determinado momento da vida, começam a apresentar novos problemas.
“Um dos principais sintomas é, de fato, essa nova fraqueza muscular. Isso faz com que muitos pacientes digam: ‘eu passei toda a infância convivendo e me adaptando a essa sequela de poliomielite’, muitas vezes até enfrentando a sociedade, porque não vivemos em um ambiente adaptado para essas pessoas. Quando acham que já estão adaptados a essa situação, acabam se deparando com um novo quadro: uma nova fraqueza muscular, fadiga e dor, sendo os três principais sintomas da Síndrome Pós-Pólio”, explica a médica.
Segundo a especialista, é muito complicado chegar a um entendimento em relação a quantidade de fisioterapia necessária para cada um, pois é variável para cada corpo. Pacientes dentro do universo neuromuscular que possuem dores crônicas e consideradas “invisíveis a olho nú” têm uma dificuldade maior no desenvolvimento de estratégias claras de recuperação.
Ao quebrar uma perna, por exemplo, a reabilitação é voltada para o fortalecimento a partir de pesos e sobrecarga. No caso da pós-pólio, se o especialista utilizar uma carga muito alta, pode sobrecarregar ainda mais os neurônios restantes. Mas, caso esteja muito abaixo, o paciente acaba sofrendo de outros distúrbios relacionados à falta de atividades físicas, como o próprio sobrepeso, o que também influencia na qualidade de vida do indivíduo. Então, o principal foco do tratamento da síndrome é entender o limite de cada paciente, para que o mesmo também siga cotidianamente esta limitação.
E não é só a reabilitação que influencia o cotidiano dos pacientes. A falta de conhecimento da própria síndrome por diversos médicos dificulta o olhar do paciente para o próprio corpo e para as mudanças no dia a dia para terem uma melhor qualidade de vida. Em situações mais graves, a Dra. Jeyse comenta que diversos deles chegam com diagnósticos psiquiátricos por conta da dor.
Áudio
Dra. Jeyse Nogueira sobre a Síndrome Pós-Pólio
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Apesar de já existir um CID para a Síndrome Pós-Pólio, existem muitas pessoas que negam. Inclusive, já ouvi de vários pacientes que eles tinham diagnóstico, foram atendidos em outros lugares que não conheciam a síndrome, e aí eles chegam aqui muitas vezes com diagnósticos psiquiátricos por conta da questão dolorosa, em que não se encontra nada.
Então, eles acabam tendo outros acompanhamentos que levam a outros diagnósticos. E quando chegam aqui, a gente entende que ele está sentindo fadiga, entende que ele está sentindo dor. Eles se sentem, até de certa forma, muitas vezes felizes por receber o diagnóstico, por alguém entender o que eles dizem. Já ouvi dizer isso: ‘pelo menos eu sei que eu não estou ficando louca’.
Dra. Jeyce Nogueira fala sobre a dificuldade enfrentada por pacientes com Síndrome Pós-Pólio para encontrar centros especializados em reabilitação. Áudio: Ivis Sabrina Vancetto Mancini (2026).
O diagnóstico incorreto também gera traumas e preconceitos diante de familiares e conhecidos, no qual os pacientes comentam que a sociedade não consegue enxergar a dor, uma fratura naquele membro exposta ou algo parecido, leva a pensar que ainda estão carregando as dores por preguiça, por não quererem auxiliar nas tarefas domésticas e até mesmo “mentindo” sobre seus sintomas.
“Muitos deles comentam: ‘as pessoas disseram que eu era preguiçosa, que eu não queria fazer as coisas, mas é que eu não consigo’. A fadiga se instala de uma forma que sobrecarrega muito, por exemplo, as pernas, e chega um momento em que elas começam a falhar no meio da caminhada. Eles passam a cair. Só que, para quem vê de fora, isso não é compreendido. Querendo ou não, eles não conseguem manter a rotina de alguém que não teve pólio”, complementa a Dra. Jeyse.
Por isso, o Ambulatório de Poliomielite e Síndrome Pós-Pólio da Unifesp localizado no município de São Paulo investe em um apoio multidisciplinar para os cerca de 2 mil pacientes que já passaram por lá. Além da importância da própria fisioterapia, o acompanhamento terapêutico é essencial para que as sequelas trazidas desde a infância e intensificadas na velhice, sejam minimizadas.
O suporte psicológico contribui para que os pacientes compreendam melhor as limitações impostas pela condição, lidem com o impacto emocional do diagnóstico e enfrentem as dificuldades do dia a dia com mais autonomia e qualidade de vida.
As sequelas que permaneceram após a erradicação da doença
A eliminação da poliomielite não encerrou seus efeitos para quem foi infectado. Décadas depois dos últimos casos registrados no país, os sobreviventes ainda convivem com sequelas que acompanham suas trajetórias e podem se intensificar com o envelhecimento. Para muitos, as limitações começaram ainda na infância, mas ganharam novos contornos ao longo da vida, afetando o trabalho, a mobilidade e até atividades simples do cotidiano.
Aos seis meses de idade, em uma fazenda no interior paulista, Lina Mancini começou a perder os movimentos de uma das pernas. A febre alta e a dificuldade para engatinhar foram os primeiros sinais de uma doença que, naquela época, ainda era pouco compreendida por famílias que viviam longe dos centros urbanos.
Morando em uma região rural distante 60 quilômetros da cidade mais próxima, o acesso ao município para atendimento médico era muito limitado, fazendo com que pais levassem seus filhos ao médico apenas quando os sintomas já se estendiam por dias ou se encontravam em quadros mais graves que o recomendado. No caso de Lina, o trajeto até o hospital precisava ser feito de charrete, e a demora para conseguir ajuda agravava ainda mais a situação de muitas crianças acometidas pela doença.
“Eu tinha uma tia que morava comigo e gostava muito de passar tempo com ela, a gente não se largava. E ela percebeu que eu estava com a febre muito alta e convulsionando. Aquele dia foi um dia fatal, né? Quando realmente me levaram ao médico. Mas meu pai já havia percebido algo diferente porque eu era uma garotinha muito esperta, mesmo com seis meses, eu já engatinhava. E uma das minhas perninhas puxava o corpo, enquanto a outra se arrastava”, relembra.
Após ser levada ao médico no município mais próximo, em Descalvado, estado de São Paulo, o médico plantonista daquele dia, Dr. Ednir Sápia, que ficou muito conhecido nos anos posteriores por conta de seu relevante apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade, havia se formado na capital e sabia dos principais sintomas e da quantidade de casos que estavam sendo contabilizados naquele ano. No mesmo dia, pediu que Lina conseguisse uma vaga de atendimento no Hospital das Clínicas, onde permaneceu por cerca de três anos sem voltar para casa.
D. Lina Mancini relata as lembranças do período em que permaneceu internada no Hospital das Clínicas. Vídeo: Ivis Sabrina Vancetto Mancini (2026).
No entanto, a alta não significou o fim do acompanhamento médico. Durante os anos seguintes, ela continuou indo ao hospital para consultas e tratamentos, mantendo contato com outras crianças que também conviviam com as sequelas da poliomielite. As lembranças mais detalhadas desse período não se concentram nos primeiros três anos de internação, dos quais ela não guarda memórias próprias, mas nos anos posteriores, quando já conseguia reconhecer as pessoas e compreender melhor o ambiente ao seu redor.
“Eu vi muitas meninas na área onde a gente ficava. Meninas que usavam respirador, meninas que nunca se levantavam da cama. Algumas tinham muita dificuldade para respirar e ficavam em outro setor, como se fosse uma UTI, no pulmão de aço, que fazia a função do pulmão normal. Às vezes, a gente ia para casa por um tempo e depois voltava. E eu lembro que praticamente eram as mesmas crianças que retornavam. Eu lembro das cidades de onde elas vinham, dos nomes das meninas. Mas muitas vezes algumas não voltavam mais. Eu não sei se desistiam do tratamento ou o que acontecia”.
A convivência com a doença também moldou a forma como enxergava o próprio corpo, que era diferente das outras meninas por ter uma perna menor que a outra. Quando finalmente retornou para casa, já maior, estranhou a diferença entre ela e a irmã mais nova. Acostumada a viver cercada por crianças com poliomielite, demorou para compreender que a maioria das pessoas não possuía as limitações que ela carregava.
Apesar das sequelas permanentes em uma das pernas que a impossibilitou de andar sem um aparelho ortopédico bem pesado, conhecido como órtese KAFO, a recuperação permitiu que construísse uma vida independente. Durante décadas, trabalhou como enfermeira em plantões extensos, que chegavam, muitas vezes, a 24 horas consecutivas. Entre subidas e descidas de escadas, deslocamentos pelos corredores do hospital e o cuidado de diversas pacientes, o esforço físico era significativamente maior do que para outros profissionais, já que precisava compensar as limitações deixadas pela pólio.
Ainda assim, recusava-se a deixar que a deficiência definisse sua trajetória profissional. Ao longo da carreira, participou de mais de 600 partos em um ambiente onde frequentemente era vista com desconfiança pelos próprios companheiros de equipe por causa da dificuldade para caminhar.
Porém, o preço dessa sobrecarga começou a aparecer. As dores se intensificaram, a fadiga tornou-se constante e o desgaste articular provocado pelos anos de trabalho passou a limitar atividades simples do cotidiano. O joelho afetado pela doença perdeu estabilidade, exigindo o uso de aparelhos ortopédicos e, posteriormente, uma cirurgia de artrodese para sua fixação.
As dificuldades também se estenderam ao reconhecimento da incapacidade laboral e, mesmo convivendo com dores intensas e limitações progressivas, Lina enfrentou oito anos de perícias médicas e respostas negativas antes de conseguir a aposentadoria por invalidez. Segundo ela, muitas vezes era orientada a retornar ao trabalho mesmo sem condições físicas adequadas para exercer suas funções.
D. Lina Mancini relata as dificuldades para conseguir a aposentadoria por invalidez. Vídeo: Ivis Sabrina Vancetto Mancini (2026).
Apesar das limitações impostas pela poliomielite, principalmente por conta da órtese pesada e da dor crônica, Lina teve dois filhos, Raquel e Fabrício, que foram diagnosticados com fibrose cística, uma doença decorrente de características genéticas herdadas dos pais, ainda sem cura que afeta principalmente os pulmões e o sistema digestivo.
O diagnóstico dos filhos trouxe novos desafios à rotina. Os dois precisavam de acompanhamento e tratamentos frequentes no Hospital das Clínicas, em São Paulo, e, durante esse período, ela precisou colocar os próprios cuidados em segundo plano. Mesmo com as orientações para reduzir esforços físicos e limitar os deslocamentos por causa das sequelas da poliomielite, continuou realizando as viagens e atividades necessárias para acompanhar os filhos nos tratamentos.
Os dois filhos faleceram em decorrência das complicações da fibrose cística. Hoje, Lina é avó de uma menina, filha de Fabrício, a autora desta reportagem, que cresceu acompanhando a trajetória da avó e conhecendo, dentro da própria família, as marcas que uma doença erradicada há décadas ainda pode deixar.
O envelhecimento dos sobreviventes
Além da falta de recursos do governo destinados aos tratamentos, também não há dados concretos do número de indivíduos que vivem com a Síndrome Pós-Pólio no país (SPP). Pesquisas da Unifesp em conjunto com o Dr. Acary Bulle estimam que entre 60% e 75% dos pacientes que tiveram a forma paralítica da doença convivem com a SPP.
Seu Antônio, que prefere não identificar o sobrenome, contou sobre as dificuldades que enfrenta para realizar suas ações cotidianas e a importância do apoio de sua esposa para ter um dia a dia mais confortável.
“Depois de mais de 30 anos trabalhando em São Paulo, o desgaste chegou em um dia de trabalho como qualquer outro. Levantei da minha cama, me troquei, fui tirar o carro da garagem e caí, do nada. Precisei da ajuda de um estranho na rua para me levantar e, a partir deste momento, minha vida precisou ser muito mais regrada”.
Quando teve seu diagnóstico de poliomielite ainda criança, participou de todas as sessões de fisioterapia e, ao ter alta, continuou tendo dificuldades para caminhar, mas utilizava suas habilidades para “trocar favores” com os coleguinhas.
“Eu era muito bom em matemática e acabei fazendo muitos amigos por isso. Então sempre fazíamos uma troca: quando eu estava muito cansado para andar, eles me carregavam, e eu os ajudava com as lições.”
No ambiente profissional, Seu Antônio conta que sentia a necessidade de provar constantemente sua competência para que sua síndrome não fosse vista como um impedimento para o trabalho. Para ele, era preciso apresentar um desempenho superior para que suas limitações físicas não se sobrepusessem à sua capacidade profissional. Ele começou a trabalhar como recepcionista em uma grande rede de hotéis e, ao longo de cinco anos, foi promovido a gerente.
A promoção para gerente veio também com mais atribuições. Seu Antônio passou o restante dos anos até a sua aposentadoria visitando todos os hotéis da rede, conferindo as acomodações e com uma jornada diária de trabalho exaustiva. Sem saber que a grande quantidade de locomoção pioraria sua doença, ele apenas descobriu o desgaste de seus membros inferiores quando conseguiu uma consulta com o Dr. Acary Bulle, no hospital da Unifesp, na capital.
Após o diagnóstico, teve que se aposentar e decidiu aproveitar sua velhice no litoral paulista. Hoje, ele reconhece que os anos de trabalho intenso também contribuíram para que pudesse construir uma rotina mais confortável na aposentadoria.
“O tanto que trabalhei quando era mais novo, mesmo sem saber que seria diagnosticado com Síndrome Pós-Pólio, foi muito importante para eu ter uma melhor qualidade de vida hoje. Eu consigo acordar tarde, não preciso me preocupar com tarefas domésticas e faço as atividades de hidroginástica na piscina do meu prédio”, comenta.
Apesar da rotina mais tranquila, as limitações físicas ainda impõem restrições à sua vida cotidiana. Antônio comenta sobre a tristeza de não conseguir andar mais de dez passos sem sentir uma fadiga extrema:
“É difícil morar na praia e não poder aproveitar o mar. Quando penso em dar uma volta na orla, lembro da dor que virá em seguida por ter andado demais. Mas não é só isso, eu sempre amei andar em shoppings, comprar um bom perfume e até mesmo experimentar novos relógios e eu sei que posso utilizar uma cadeira de rodas e ainda ir, mas só de pensar no cansaço que vou ter e nos próximos três ou quatro dias que mal vou conseguir me mover, prefiro ficar no conforto da minha casa”.
O abandono social e a sobrecarga dos pacientes
Em quase todos os casos conhecidos, há a presença da dificuldade de ser aceito pela sociedade como um bom profissional, como citaram a D. Lina e o Seu Antônio. Mas, também há uma parcela que não conseguiu trabalhar e até mesmo se aposentar, tanto por ter que cuidar de sua família integralmente em casa, quanto pela dificuldade extrema de locomoção causada pelo poliovírus, agente responsável pela poliomielite, que provoca a destruição de neurônios motores e comprometer os movimentos.
Com o envelhecimento desses pacientes e as sequelas da SPP, que sobrecarregam cada vez mais os neurônios sobreviventes, o descanso e a moderação das atividades não são uma realidade para todos.
Pessoas que convivem com sequelas da poliomielite podem acessar a rede de cuidados destinada às pessoas com deficiência no Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento inclui ações de reabilitação, que podem envolver diferentes profissionais e têm como objetivo preservar a funcionalidade, ampliar a autonomia e melhorar a participação social dos pacientes. O Ministério da Saúde possui, inclusive, diretrizes específicas para orientar o atendimento de pessoas com Síndrome Pós-Poliomielite dentro da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência.
A legislação também assegura outros direitos às pessoas com deficiência, como acesso à saúde, reabilitação, acessibilidade, transporte e inclusão no mercado de trabalho. No SUS, também existem mecanismos para a concessão e manutenção de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção, recursos que podem ser fundamentais para pessoas com sequelas motoras da poliomielite.
Na prática, porém, o acesso a esses recursos depende da estrutura disponível em cada região, da necessidade individual do paciente e da capacidade de chegar aos serviços. É nesse intervalo entre os direitos previstos e as condições reais de acesso que aparecem algumas das dificuldades enfrentadas pelos pacientes.
“Já chegou paciente aqui que morava com a mãe. Era uma senhora de 60 anos que cuidava sozinha da mãe, de 94 anos. Não tinha nenhum outro membro da família para ajudar. Então, existe toda uma questão socioeconômica que interfere diretamente nesse processo de reabilitação. Tem todo um contexto”, comenta a Dra. Jeyce.
Além das questões familiares, muitos dependem do transporte público para chegar até a reabilitação ou propriamente uma consulta e enfrentam trajetos que superam uma hora e meia de viagem. O deslocamento, portanto, também se torna parte da sobrecarga enfrentada por esses pacientes.
A importância da iniciativa privada no cuidado com os pacientes
A falta de recursos destinados a pesquisas sobre a poliomielite é apontada por profissionais que atuam na área. Com o surgimento de novas pandemias e doenças epidêmicas, como a dengue, e com a erradicação bem-sucedida da poliomielite em diversos territórios por meio da vacinação, a atenção do poder público foi sendo reduzida. O governo, que antes destinava milhões de dólares, estruturava espaços em hospitais públicos e investia na reabilitação dos pacientes, passou a diminuir progressivamente esses recursos.
Como consequência, os pacientes foram sendo cada vez mais desassistidos, ao passo que as contribuições financeiras privadas passaram a superar as públicas a partir de 2009, com a participação do setor público diminuindo ao longo dos anos. Em 2020, dos US$ 814 milhões dos investimentos que foram destinados, US$ 484 milhões foram provenientes da iniciativa privada.
Fonte: Our World in Data, com base em dados da Global Polio Eradication Initiative (GPEI) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), via Banco Mundial. Elaboração: Ivis Sabrina Vancetto Mancini (2026).
Na tentativa de auxiliar pacientes de poliomielite do município de São Paulo e região que não possuem condições de financiar tratamentos, o Instituto Giorgio Nicoli conta com cerca de 70 indivíduos auxiliados atualmente de maneira integral com cuidados nutricionais, psicológicos e físicos (hidroterapia ou fisioterapia, a depender do diagnóstico médico).
A história começa com Jorge Nicoli, ele próprio paciente de poliomielite. Ao chegar para tratamento com a então recém-formada Dra. Tatiana, descrita por ele como “o anjo da vida”, encontrou uma estrutura ainda improvisada, com atendimentos realizados em uma piscina alugada, sem apoio institucional.
Diante da dificuldade de acesso ao tratamento, Nicoli passou a custear, por conta própria, o atendimento de outros colegas que não tinham condições financeiras. O gesto, inicialmente individual, cresceu. Com o tempo, ele passou a fazer doações para outras iniciativas, mas percebeu que os recursos nem sempre chegavam da forma como gostaria.
Foi a partir dessa frustração que surgiu, em conjunto com profissionais da área, a ideia de criar seu próprio Instituto. Em 2012, foi oficialmente fundado, ainda com um número reduzido de pacientes, mas com uma proposta clara: oferecer acompanhamento contínuo e especializado para pessoas com sequelas da poliomielite.
Hoje, ele funciona com apoio direto de seu fundador, que se mantém como financiador. O Instituto recebe contatos frequentes de pacientes de outras regiões do país, especialmente do Norte e Nordeste, onde a falta de informação e de profissionais especializados ainda é uma realidade, mas, por conta da fiscalização da equipe e do local das clínicas, o atendimento é destinado aos pacientes da região de São Paulo.
A ideia do Instituto é conseguir auxiliar os pacientes de maneira que os mesmos continuem as práticas no cotidiano, funcionando como uma “manutenção” da qualidade de vida, comenta Ana Paula Freitas, responsável pelo acompanhamento dos pacientes do Instituto.
“O tempo de seis meses foi determinado como um período ideal para que o paciente tenha uma melhora significativa. Mas, ele não vai ter alta clínica. Não é uma reabilitação, é uma manutenção. É importante que ele não fique parado, porque, durante esses seis meses, ele apresenta melhora. Se sair e não conseguir manter nenhuma atividade, acaba perdendo esse ganho”, afirma.
Após esse período, o paciente passa por uma nova avaliação médica, e o tratamento pode ser prorrogado por mais um ano. Depois disso, ele retorna para a fila do instituto, tanto para dar oportunidade a outros pacientes, quanto para poder voltar futuramente e continuar o acompanhamento.
Ana também comenta que muitos acometidos acabam indo às consultas sozinhos, sem uma rede de apoio até mesmo na própria residência, o que afirma a necessidade do tratamento multidisciplinar, e não apenas muscular, dos indivíduos.
Áudio
Ana Freitas, do Instituto Giorgio Nicoli
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A grande maioria vem sozinha. Mesmo com a idade. Tem paciente que já chegou aqui de idade, sem apoio nenhum, andando devagarzinho. Em alguns casos é porque eles não aceitam que precisam de ajuda: ‘não quero me render à cadeira de rodas, não quero me render a uma muleta’, porque acham que a doença está vencendo. ‘Passei a vida inteira sem nada, por que agora eu preciso usar?’
Tem paciente que não faz acompanhamento nenhum: nem com fisiatra, nem com neuro, nem com ortopedista. ‘Eu fazia quando era criança’, e nunca mais se preocupou. Mas a idade chega, e as coisas vêm junto. Então é muito dividido: tem o paciente que aceita e entende que quer se cuidar, e tem o paciente que só vem se cuidar quando não tem mais o que fazer.
Tem paciente que sim, tem uma rede de apoio, que chega acompanhado, que vem com a esposa ou com o filho. E tem paciente que vem sozinho porque de fato não tem ninguém. Tem paciente de todo tipo: o que aceita, o que não aceita, o que tem acompanhamento e o que não tem.
Por isso a questão do Instituto não é só dar um tratamento durante seis meses, nem fazer com que ele fique preso à gente. É que ele aprenda a se cuidar, é orientar para que ele consiga ter uma qualidade de vida melhor, para entender que não precisa estar se doando, se esforçando o tempo todo, que ele também pode ser cuidado. Porque chega aqui mãe de família, pai de família: ‘eu tenho que trabalhar porque tenho uma família para cuidar, tenho um filho’. Mas ele também precisa ser cuidado, também precisa de atenção.
Ana Freitas, do Instituto Giorgio Nicoli, fala sobre os pacientes que chegam à clínica. Áudio: Ivis Sabrina Vancetto Mancini (2026).
Uma doença que nunca deixou de existir
A erradicação da poliomielite no Brasil pela imunização coletiva fez com que os casos desaparecessem, mas não as marcas deixadas por ela. Enquanto as novas gerações cresceram sem conhecer pulmões de aço ou crianças aprendendo a andar novamente com suas perninhas encurtadas, milhares de brasileiros continuam vivendo com as sequelas de uma infecção que ocorreu ainda na infância.
O desafio de hoje já não é apenas impedir que o vírus volte a circular, mas garantir que aqueles que sobreviveram não sejam esquecidos. As sequelas carregadas pelos sobreviventes são um lembrete de que a poliomielite é também um alerta para nunca mais passarmos pelas consequências de uma doença que poderia ser evitada com algumas gotas da vacina.
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A vacina contra a poliomielite é gratuita, segura e está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde do SUS. Verifique a caderneta do seu filho hoje.